De todas as maldições que povoam o imaginário argentino e sul-americano, nenhuma é tão trágica e visceral como a do Lobizón. Ao contrário do homem lobo europeu, que é frequentemente produto de uma mordida infecciosa, o Lobizón é vítima de um destino genealógico, uma condenação imposta pelo orden de nascimento.

A transformação ocorre nos dias de lua cheia. Ao cair a noite, o jovem maldito sente uma inquietude insuportável, uma febre que queima a pele e os ossos. Deve se afastar de sua casa, buscar a solidão do mato ou de um cruzamento de estradas, e ali, revolvendo-se na areia, o pó ou até mesmo sobre o esterco dos animais, seu corpo se quebra e se recompõe na forma da besta.

O drama do Lobizón reside no fato de que, ao amanhecer do sábado, a besta recupera sua forma humana, mas o homem fica marcado. Aparece nu, sujo, ferido, com um cansaço mortal e sem memória clara do que ocorreu, embora com um sabor amargo na boca e uma culpa inexplicável.

Para romper a maldição ou matar a besta, as armas convencionais são inúteis. Além disso, a tradição argentina agrega um detalhe cruel: se você lograr ferir o Lobizón, mas não o matar, a maldição pode ser transferida ou o animal recuperará sua forma humana diante de seus olhos, revelando a identidade do vizinho ou familiar maldito.

Hoje, embora a ciência e a modernidade tenham deslocado a superstição, nos povos do interior, quando um cão grande e estranho cruza a rua em uma noite de lua cheia e os cães do bairro enlouquecem de medo, ninguém se atreve a sair para verificar o que é. Por via das dúvidas, a porta é fechada com dupla tranca e se reza, porque a sombra do Lobizón, o sétimo filho maldito, ainda é longa na memória coletiva.